Cada um no seu quadrado - Por que a sustentabilidade da pecuária depende de papéis bem definidos na cadeia do leite
- Bruna Silper, Heloise Duarte e Luiz Gustavo Pereira

- há 5 horas
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Este artigo foi publicado na coluna Sustentabilidade Integral, da Edição 206 da Revista Leite Integral - clique para acessar a edição completa
A sustentabilidade na pecuária leiteira tem avançado, mas o desafio que se impõe vai muito além do âmbito técnico. A questão central é a capacidade de coordenação entre os diferentes elos da cadeia produtiva.
Como em outras edições da coluna Sustentabilidade Integral, partimos de uma referência musical simples para abrir essa discussão. Em geral, essas escolhas passam por canções brasileiras mais tradicionais, mas, nesta edição, a inspiração vem de um caminho diferente. A “Dança do Quadrado”, popularizada como um vídeo viral, parte de uma ideia simples: para a dança funcionar, cada um precisa estar no seu quadrado, no ritmo certo, ocupando o seu espaço. Quando isso acontece, o movimento flui; caso contrário, a harmonia se perde e dá lugar à desorganização.
Na pecuária leiteira, a sustentabilidade reflete essa mesma lógica, não por falta de esforço ou conhecimento, mas por uma dificuldade crescente de coordenação. O tema, antes, era tratado como tendência; hoje é condicionante para a competitividade, o acesso ao mercado e a permanência no setor. Nos últimos anos, lideranças da cadeia de lácteos incorporaram conceitos, desenvolveram ferramentas e ampliaram o diálogo com agendas globais cada vez mais exigentes.
Esta aparente evolução tem, por outro lado, evidenciado um desalinhamento estrutural. Produtores têm sido demandados a implementar práticas e a fornecer dados, muitas vezes sem clareza quanto ao propósito destas ações. As indústrias são direcionadas a assumir compromissos climáticos, mas sem antes estruturar os meios para consolidar práticas consistentes ao longo da cadeia produtiva. Técnicos atuam como agentes fundamentais dessa transição, mas, em muitos casos, sem uma lógica unificada de práticas, indicadores e objetivos a serem trabalhados. O mercado, por sua vez, intensifica exigências de sustentabilidade, rastreabilidade e comprovação, mas ainda privilegia evidências pontuais em detrimento da construção compartilhada de processos, o que dificulta a tradução dessas demandas em prática.
Ou seja, há avanço, mas ainda não há convergência. A sustentabilidade evolui em múltiplas frentes, nem sempre de forma integrada, o que resulta na perda de parte relevante do potencial de transformação.
Da urgência à técnica
O primeiro passo na evolução do setor em relação à sustentabilidade foi reconhecer a urgência do tema e trazê-lo à discussão. Em seguida, esse movimento passou a incorporar uma abordagem técnica, com foco em eficiência produtiva, redução de emissões, manejo de dejetos, nutrição e estrutura de rebanho.
A incorporação de metodologias como a Avaliação do Ciclo de Vida foi um divisor de águas, ao quantificar e permitir compreender as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa da produção. Essa abordagem torna a análise estruturada e comparável, elevando o nível de maturidade do setor.
Com isso, vem se consolidando o entendimento de que a maior parte das emissões associadas aos produtos lácteos está concentrada na produção primária, ou seja, da porteira para dentro. Ao mesmo tempo, amplia-se a percepção de que somente a pegada de carbono não é suficiente para validar o produto frente à demanda que se impõe quando falamos de sustentabilidade e seus aspectos sociais, ambientais e econômicos. Desta forma, torna-se necessária a incorporação de outras dimensões, como uso de recursos naturais, bem-estar animal e humano, biodiversidade, segurança e qualidade do produto, estrutura e saúde do solo, uso eficiente da água, desempenho econômico e desenvolvimento do mercado.
O ponto de virada: o desafio deixa de ser apenas técnico
Paralelamente ao avanço técnico, o setor passa a ampliar sua conexão com a agenda global. Países e empresas têm assumido compromissos referentes às emissões de gases de efeito estufa, que, para serem demonstrados, dependem de dados coletados e analisados com base em metodologias reconhecidas internacionalmente e alinhadas às diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e aos mecanismos de transparência climática.
Instrumentos como o Inventário Nacional de Emissões ganham relevância ao organizar dados, orientar políticas públicas e reforçar a necessidade de informação consistente para a tomada de decisão. O próprio inventário mostra que a gestão climática depende de dados estruturados, comparáveis e integrados ao longo da cadeia.
Esses avanços ajudam a estruturar melhor o tema e deixam claro que o desafio do setor já não está apenas em saber o que fazer, mas em como executar de forma coordenada ao longo da cadeia. Assim, a limitação da pecuária leiteira, que já foi caracterizada por falta de disseminação da técnica, passa a residir também na ausência de coordenação entre os diferentes agentes no que tange a objetivos e métodos.
PAÍSES E EMPRESAS TÊM ASSUMIDO COMPROMISSOS REFERENTES ÀS EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA, QUE, PARA SEREM DEMONSTRADOS, DEPENDEM DE DADOS COLETADOS E ANALISADOS COM BASE EM METODOLOGIAS RECONHECIDAS INTERNACIONALMENTE E ALINHADAS ÀS DIRETRIZES DO PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS (IPCC) E AOS MECANISMOS DE TRANSPARÊNCIA CLIMÁTICA
Encarando o problema de coordenação
Sustentabilidade não pode ser alcançada por um único elo da cadeia. Mesmo que a produção primária concentre a maior parcela das emissões e das decisões operacionais, a capacidade de transformar resultados em valor depende da articulação entre todos os envolvidos.
Este problema de coordenação vem sendo abordado por iniciativas globais, como o Dairy Sustainability Framework (DSF), que atua na construção de diretrizes para o setor, e o Sustainable Dairy Partnership (SDP - SAI Platform), que lidera a estruturação das relações comerciais entre compradores e processadores de leite. Iniciativas como essas contribuem para o alinhamento entre produtores, indústrias e demais agentes em torno de critérios comuns, promovendo comparabilidade, transparência e governança ao longo do sistema produtivo.
Essa abordagem se conecta diretamente ao conceito de cadeia de valor, em que o desempenho de cada elo influencia o resultado do todo. Indicadores ambientais, sociais e econômicos se influenciam continuamente: uma decisão tomada na fazenda impacta a indústria, que, por sua vez, impacta o mercado, e esse retorno influencia novamente a produção. Ignorar essa dinâmica é tratar a sustentabilidade de forma fragmentada, quando, na prática, ela é um atributo integrado. A Figura 1 ilustra a transição desta abordagem fragmentada para uma lógica coordenada e baseada em dados.
Figura 1. Sustentabilidade na pecuária leiteira: da fragmentação à coordenação baseada em dados

Incerteza leva à perda de eficiência
Quando não há clareza sobre o papel de cada elo, a tendência é que a responsabilidade se concentre de forma desproporcional, gerando sobrecarga em alguns pontos e lacunas em outros.
O produtor passa a ser cobrado por indicadores que não controla integralmente. Na prática, isso se traduz em um cenário conhecido no campo: planilhas preenchidas, dados coletados e informações enviadas, sem que haja retorno claro, seja na forma de remuneração ou de direcionamento técnico consistente. A indústria assume compromissos que dependem de variáveis fora do seu controle direto. Técnicos operam sem uma base padronizada que permita comparar e evoluir de forma consistente. O mercado sinaliza preferências, mas nem sempre cria mecanismos claros para valorizar essas práticas.
Avançar sem coordenação tende a gerar aumento de custos sem retorno proporcional, duplicidade de esforços, inconsistência na geração de dados e dificuldade de comprovação dos resultados. Também pode ampliar a exclusão de produtores por falta de acesso a ferramentas, conhecimento ou suporte técnico para acompanhar essa evolução. Por fim, tanto a eficiência da transição quanto sua credibilidade ficam comprometidas.
Dados: o elo invisível da coordenação
Para que a sustentabilidade seja uma construção coletiva, a informação também precisa ser. É necessário consolidar, padronizar e interpretar dados em uma lógica que permita uma leitura integrada. A diferença entre informação e inteligência reside na conexão oferecida por plataformas que integram dados e os apresentam aos diversos elos do setor, como apresentado na Figura 2.
Figura 2. Visualização integrada de indicadores de sustentabilidade na cadeia do leite (PEC Map, dados ilustrativos)

TRANSFORMAR DADOS GERADOS NA FAZENDA, MUITAS VEZES VISTOS COMO REGISTROS ISOLADOS, EM BASE PARA ANÁLISE COMPARATIVA E PARA O DIRECIONAMENTO DE DECISÕES É O QUE VIABILIZA A ATUAÇÃO COORDENADA NO SETOR.
A qualidade dos resultados depende diretamente da consistência dos dados coletados, das metodologias utilizadas e da adequação dos fatores de emissão, no caso da pegada de carbono. Sem padronização e governança, a comparabilidade se perde e, com ela, a capacidade de transformar informação em estratégia. Por isso, a discussão sobre dados é estratégica na agenda ESG.
Ao consolidar indicadores de diferentes propriedades, regiões e sistemas produtivos, soluções de inteligência ESG, como o PEC Map, desenvolvido pela ESGpec, estruturam uma visão integrada, conectando a realidade do campo às demandas da indústria e às exigências do mercado. Essa integração leva a sustentabilidade de um simples diagnóstico até o nível de gestão.
O próximo nível da sustentabilidade no leite
A evolução passa por conectar as práticas isoladas existentes hoje a um sistema de gestão da sustentabilidade, que exige organização, clareza de papéis, critérios alinhados, métricas consistentes e capacidade de coordenação e, sobretudo, que cada elo compreenda o seu papel e atue de forma integrada com os demais.
Na prática, isso se traduz em reconhecer que cada participante ocupa um “quadrado” nessa lógica. O produtor, por exemplo, tende a concentrar decisões relacionadas ao bem-estar animal, à eficiência do rebanho e à consistência na geração de dados na fazenda. A indústria, por sua vez, tem ampliado seu papel ao direcionar o conjunto, estabelecer critérios, criar incentivos e consolidar informações para responder às demandas do mercado. Já o técnico atua como elo de implementação, conectando indicadores à realidade do campo e apoiando a transformação de dados em decisões de manejo e em resultados econômicos.
Esse arranjo depende também de um ambiente mais amplo, no qual políticas públicas, diretrizes setoriais e instrumentos de apoio contribuem para orientar práticas, reduzir assimetrias e viabilizar a adoção de soluções no campo.
Mais do que uma definição rígida de funções, trata-se de uma construção, na qual a clareza de papéis favorece a evolução da sustentabilidade na pecuária leiteira. O desafio não é fazer mais, mas fazer melhor, de forma alinhada e progressivamente integrada.
Condição para avançar
A metáfora de que cada um deve estar no seu quadrado é condição prática para o avanço do setor. Não se trata de limitar papéis, mas de definir responsabilidades e garantir execução com clareza e alinhamento. O cocriar, com cada um no seu quadrado, faz com que o caminho para a sustentabilidade passe a se consolidar como resultado coletivo e mensurável. É nesse ponto que a pecuária leiteira deixa de reagir à agenda global e passa a participar ativamente da sua construção.
![]() Uma agenda em construção Ao longo das doze colunas da série Sustentabilidade Integral, buscamos acompanhar a evolução da agenda ESG na pecuária leiteira. Nesse percurso, a escolha de uma música como ponto de partida consolidou-se como recurso recorrente da coluna. Mais do que uma escolha estética, trata-se de uma forma de organizar o pensamento, conferir unidade a temas complexos e aproximar diferentes dimensões da sustentabilidade em uma mesma narrativa. Estes 12 artigos formam um percurso que ajuda a entender como chegamos até aqui: do reconhecimento de que a mudança já estava em curso, em “O vento da mudança”, passando pelas soluções aplicadas discutidas em “Tempos modernos”, até a construção de uma visão de futuro em “Além do horizonte”. Nas edições seguintes, a coluna explorou como essa agenda se materializa no dia a dia, em “Maneira simples” e “De janeiro a janeiro”, seguindo para fatores muitas vezes invisíveis, como comportamento e bem-estar animal, discutidos em “Nada é por acaso” e “Novo tempo”, colocando a sustentabilidade social no no centro das atenções. A pressão global também entrou em pauta, com as reflexões sobre a COP30 em “O tempo não para” e “Vamos precisar de todo mundo”, indicando que a próxima década será marcada pela implementação real. Mais recentemente, temas estruturantes como o papel das pessoas em “Quem sabe faz a hora” e a governança climática da cadeia em “O que é, o que é?” reforçam que sustentabilidade não é mais uma agenda paralela, e sim parte central da competitividade do setor. Revisitar esse caminho é, também, uma forma de compreender que a transformação da pecuária não ocorre em um único movimento, mas na construção contínua de decisões mais conscientes e conectadas. |
Autores
Bruna Silper - Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal e produtora de leite em MG, CEO da ESGpec.
Heloise Duarte - Veterinária, especialista em Gestão Agroindustrial e produtora de corte em MG, COO da ESGpec.
Luiz Gustavo Pereira – Veterinário, professor e pesquisador, Doutor em Ciência Animal, especialista em nutrição e sistemas regenerativos.

A Coluna Sustentabilidade Integral é uma coluna assinada pela ESGpec na Revista Leite Integral, que vem se consolidando como um espaço de diálogo entre ciência, inovação e prática no campo. Cada artigo é um convite à reflexão sobre o futuro da pecuária leiteira, e sobre como podemos equilibrar produtividade, bem-estar animal e responsabilidade ambiental.
Confira todas as colunas publicadas na revista:
① O vento da mudança — um chamado para reconhecer que o tempo da sustentabilidade já chegou e que o agro precisa agir agora.
② Tempos modernos — soluções práticas e tecnológicas para reduzir as emissões de metano na pecuária.
③ Além do horizonte — uma visão sobre como inovação e regeneração abrem novos caminhos para o leite do futuro.
④ Maneira simples — como cada escolha do produtor pode transformar a pecuária, tornando o ESG algo acessível e real no campo.
⑤ Nada é por acaso — comportamento animal e bem-estar: A ciência aplicada à produção leiteira sustentável.
⑥ COP30: O tempo não para — Qual o papel da pecuária em um planeta sob pressão?
⑦ COP30: Vamos precisar de todo mundo — O que a maior conferência do clima do mundo revelou para o leite brasileiro e por que a próxima década exige dados, transparência e implementação real no campo.
⑧ DE JANEIRO A JANEIRO: a sustentabilidade começa no básico — Este artigo mostra como decisões consistentes, do rebanho ao solo, reduzem emissões e aumentam a eficiência na produção de leite.
⑨ QUEM SABE FAZ A HORA - O Ano Internacional das Mulheres no Campo e o ESG além do carbono — Este artigo discute por que o futuro da pecuária leiteira depende não só de métricas ambientais, e por que o ESG precisa ir além do carbono para gerar resiliência real.
⑩ NOVO TEMPO - O bem-estar animal na agenda global da sustentabilidade do leite — Este artigo discute por que o bem-estar animal deixou de ser periférico e passou a integrar o núcleo da sustentabilidade do leite.
⑪ O QUE É, O QUE É? Saiba o que é o Escopo 3 e o que ele exige da produção de leite — O Escopo 3 e o reposicionamento estratégico da cadeia do leite - A governança climática da cadeia começa na fazenda e define competitividade, risco e acesso a mercado.
⑫ Cada um no seu quadrado - Por que a sustentabilidade da pecuária depende de papéis bem definidos na cadeia do leite — A sustentabilidade na pecuária leiteira tem avançado, mas o desafio que se impõe vai muito além do âmbito técnico.
🌿 A coluna é fruto da parceria entre ESGpec e a Revista Leite Integral, e reforça nosso compromisso em tornar a sustentabilidade um tema prático, mensurável e inspirado




