NOVO TEMPO - O bem-estar animal na agenda global da sustentabilidade do leite
- Bruna Silper, Heloise Duarte e Luiz Gustavo Pereira

- há 7 dias
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Atualizado: há 4 dias
Este artigo foi publicado na coluna Sustentabilidade Integral, da Edição 204 da Revista Leite Integral - clique para acessar a edição completa
O bem-estar animal vem passando por uma transformação silenciosa, porém profunda e em âmbito global. Um conceito que, durante muito tempo, esteve associado sobretudo à ética, à percepção do consumidor e à comunicação institucional passou a ocupar o centro de agendas regulatórias, de compromissos corporativos e de exigências de mercado. Esse novo posicionamento aparece de forma clara nas discussões consolidadas no IDF Dairy Cattle Welfare Forum: Key Insights (Fórum da IDF sobre Bem-Estar de Vacas Leiteiras: Principais aprendizados), publicado em janeiro de 2026 pela International Dairy Federation (Federação Internacional de Lácteos), que reúne aprendizados técnicos e estratégicos a partir do Fórum Global de Bem-Estar Animal, realizado em Santiago, Chile, em outubro de 2025.
A leitura desse material evidencia que o debate internacional já não gira em torno de “se” o bem-estar animal importa, mas de “como” estruturar programas viáveis, escaláveis e aderentes à diversidade dos sistemas produtivos existentes. É nesse ponto que o tema deixa de ser periférico e passa a integrar o núcleo de discussões sobre competitividade, acesso a mercados e legitimidade social da produção leiteira.
Esse movimento dialoga com o espírito de Novo tempo, de Ivan Lins, referência que atravessa esta coluna. A música fala menos de promessas e mais de atravessar fases complexas com atenção, maturidade e responsabilidade. Assim como na canção, a discussão sobre práticas de bem-estar animal chegou a um momento em que crescer, adaptar-se e decidir deixaram de ser alternativas e passaram a ser parte do caminho.
Ao mesmo tempo, esse novo tempo já começa a ser lido a partir de dados brasileiros gerados no campo. Avaliações estruturadas de bem-estar animal realizadas nas diferentes regiões do país ajudam a traduzir o debate global para a realidade das fazendas, revelando avanços, desafios e prioridades concretas. É nessa combinação entre referências internacionais e dados nacionais que este artigo se apoia.
O DEBATE INTERNACIONAL JÁ NÃO GIRA EM TORNO DE “SE” O BEM-ESTAR ANIMAL IMPORTA, MAS DE “COMO” ESTRUTURAR PROGRAMAS VIÁVEIS, ESCALÁVEIS E ADERENTES À DIVERSIDADE DOS SISTEMAS PRODUTIVOS EXISTENTES
Expectativas crescem mais rápido do que a capacidade de adaptação
Um dos pontos mais recorrentes do debate no IDF foi a velocidade com que as expectativas regulatórias e de mercado vêm evoluindo. Projetos de bem-estar animal precisam acompanhar esse ritmo, sendo capazes de se ajustar a novas demandas sem perder coerência técnica. A mensagem do Fórum foi clara: modelos rígidos, desenhados de forma genérica ou desconectados das condições produtivas tendem a gerar resistência na adoção e, consequentemente, têm baixa efetividade.
Em contrapartida, experiências bem-sucedidas têm sido aquelas compostas por frameworks[1] claros de boas condutas, combinados com mecanismos flexíveis de avaliação e foco em melhoria contínua por parte dos produtores. Mais do que cumprir requisitos, trata-se de construir trajetórias de avanço possíveis dentro da diversidade das configurações produtivas, e que atendam também aos desejos das diversas partes que compõem o setor leiteiro.
O desafio central não é técnico, é adesão
Cada dia mais, tem-se tornado evidente que o principal desafio para a adoção de boas práticas de bem-estar animal não é técnico, e sim, humano. A adesão dos produtores continua sendo um fator decisivo para o sucesso de qualquer programa de bem-estar animal. “Comprar a ideia” depende de enxergar valor prático, coerência com o manejo diário e compatibilidade com a viabilidade econômica das fazendas.
Ao mesmo tempo, há uma tensão constante entre diretrizes da esfera regulatória, demandas de organizações da sociedade civil, pressões dos consumidores e aquilo que, de fato, consegue ser implementado nas propriedades rurais. Programas construídos sem diálogo com quem produz tendem a falhar, independentemente da qualidade técnica de seus critérios. O Fórum reforçou que o bem-estar animal precisa ser construído com os produtores, e não apenas para ele
Clima, estresse térmico e bem-estar entram na mesma conversa
Um tema moderno que amplia ainda mais essa complexidade é o aquecimento global, e com ele, as mudanças climáticas. O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos exerce pressão adicional sobre temas clássicos do bem-estar animal, como o conforto térmico, o comportamento e a nutrição. Estresse térmico e produção de forragens, por exemplo, deixam de ser questões pontuais e passam a ser adversidades estruturais em muitas regiões.
Nesse cenário, o bem-estar animal deixa de ser apenas uma questão de manejo e passa a se relacionar diretamente com a resiliência dos sistemas de produção. Soluções isoladas perdem eficácia e a discussão passa a exigir abordagens integradas que incluam manejo, infraestrutura, genética e planejamentos agrícola e produtivo.
Diferentes países, questões surpreendentemente semelhantes
Apesar das diferenças entre países e modelos produtivos, as discussões do Fórum evidenciaram que as questões relacionadas ao bem-estar animal são surpreendentemente semelhantes em contextos socioeconômicos distintos. Experiências de Austrália, Canadá e México, seja em iniciativas lideradas por governos, indústrias ou associações de produtores, revelam pontos em comum que ajudam a explicar o sucesso de iniciativas nestes países.
Entre esses pontos estão a existência de frameworks claros de métodos recomendados, indicadores alinhados aos cinco domínios do bem-estar animal, relatórios transparentes, engajamento de múltiplas partes interessadas e coleta consistente de dados ao longo do tempo. O método de governança é diverso entre programas modelo, mas a lógica de construção é convergente.
Bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do leite
Outro aspecto central do debate foi a integração crescente entre bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do leite. Assim como a qualidade do produto é monitorada de forma contínua há décadas, o bem-estar animal começa a ser incorporado como parte de abordagens mais amplas de avaliação do desempenho das fazendas.
Essa conexão cria bases concretas para incentivos econômicos, diferenciação de mercado e reconhecimento dos esforços realizados por produtores e técnicos. O bem-estar animal deixa de ser percebido apenas como custo ou exigência externa e passa a ocupar um lugar estratégico na gestão da atividade leiteira. (figura 1)
Figura 1 - Integração entre bem-estar animal e sustentabilidade na pecuária leiteira

O que as leituras de campo no Brasil já indicam
Esse movimento de integração entre bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do leite não se limita à esfera internacional. Esses elementos já aparecem em trabalhos de campo realizados no Brasil, com base em diagnósticos estruturados de bem-estar animal em diferentes sistemas produtivos. Um exemplo é o levantamento conduzido por meio do BEA Score, ferramenta desenvolvida pela ESGpec, que consolidou os resultados de mais de 800 fazendas distribuídas por 11 estados brasileiros, refletindo uma ampla diversidade de ambientes produtivos. Parte significativa dessas avaliações foi realizada no contexto de projetos desenvolvidos em parceria com a Alvoar Lácteos, o Programa Educampo do SEBRAE Minas Gerais e a Rurale, entre outras iniciativas, conectando diagnóstico técnico, gestão da produção e melhoria contínua.
A análise agregada desses dados permite observar como os diferentes domínios do bem-estar animal se expressam. O domínio Ambiente apresenta, em média, um nível de atendimento de 78% dos critérios padrão-ouro, refletindo bom manejo em aspectos como instalações, conforto e estresse térmico. Nutrição aparece em seguida, com 73% dos critérios de boas práticas sendo adotados, o que mostra cuidado com a alimentação do rebanho.
O Estado mental dos animais, domínio que avalia relações homem-animal e positividade das experiências, apresenta um índice médio de 70%. Já os domínios Comportamento e Saúde concentram os maiores desafios, com 67% e 59% de atendimento ao padrão-ouro, respectivamente, o que indica espaço relevante para melhorias significativas nessas áreas. (figura 2)
Figura 2 - Desempenho médio dos domínios do bem-estar animal nas fazendas avaliadas

A análise destes dados reforça uma das mensagens centrais do Fórum do IDF: o bem-estar animal não é um atributo único, mas o resultado do equilíbrio entre múltiplos fatores. Avançar exige olhar sistêmico, priorização técnica e propostas capazes de orientar a melhoria contínua, sem perder de vista a realidade operacional das fazendas e a disponibilidade de recursos humanos e financeiros.
Capacitação, tecnologia e governança como pilares do avanço
Para que esse avanço ocorra em escala, o treinamento de técnicos e produtores é elemento-chave. Formar pessoas capazes de aplicar boas práticas, interpretar indicadores e ajustar os manejos em diferentes cenários é essencial para a consolidação dos programas de bem-estar animal. Em muitos contextos, a escassez de profissionais qualificados torna ainda mais crítico o desenho de abordagens simples e aplicáveis.
Essas metodologias devem ser apoiadas por tecnologia, apontada no relatório do IDF como fator estruturante da melhoria contínua e do benchmarking. Sistemas digitais de coleta de dados, avaliação e acompanhamento permitem transformar observações de campo em informação organizada, facilitando a tomada de decisão, o aprendizado coletivo e a comunicação ao longo da cadeia produtiva.
O BEM-ESTAR ANIMAL NÃO É UM ATRIBUTO ÚNICO, MAS O RESULTADO DO EQUILÍBRIO ENTRE MÚLTIPLOS FATORES. AVANÇAR EXIGE OLHAR SISTÊMICO, PRIORIZAÇÃO TÉCNICA E PROPOSTAS CAPAZES DE ORIENTAR A MELHORIA CONTÍNUA, SEM PERDER DE VISTA A REALIDADE OPERACIONAL DAS FAZENDAS E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS HUMANOS E FINANCEIROS
Por fim, mesmo que a governança dos arranjos de implementação do bem-estar animal varie entre regiões, indústrias, governos e produtores, ela precisa estar alinhada. Ações fragmentadas tendem a gerar sobreposição de exigências, confusão operacional e perda de confiança. O caminho mais promissor parece ser aquele que busca coordenação, clareza de objetivos e construção conjunta de soluções para a adoção em larga escala das melhores práticas de bem-estar animal.
O que o Fórum do IDF deixa como mensagem
O Fórum Global de Bem-Estar Animal do IDF reforça que o futuro do setor não será definido por exigências isoladas ou pela multiplicação de protocolos desconectados da realidade operacional. A chave está na nossa capacidade de construir sistemas integrados, baseados em dados, com governança clara e diálogo permanente com as pessoas no meio rural.
O bem-estar animal, antes visto como requisito externo, consolida-se como parte estruturante da sustentabilidade, da resiliência e da competitividade no longo prazo. Como sugere Novo Tempo, não se trata de negar as barreiras inerentes a esse processo, mas de reconhecer que este é um momento de amadurecimento de toda a cadeia. É tempo de avançarmos apoiados em escolhas conscientes, construção coletiva e soluções capazes de transformar princípios em procedimentos cotidianos.
[1] Frameworks: estruturas conceituais que organizam princípios, critérios e indicadores para orientar atividades, avaliação e tomada de decisão de forma consistente entre diferentes contextos e atores.
Autores
Bruna Silper - Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal e produtora de leite em MG, CEO da ESGpec.
Heloise Duarte - Veterinária, especialista em Gestão Agroindustrial e produtora de corte em MG, COO da ESGpec.
Luiz Gustavo Pereira – Veterinário, professor e pesquisador, Doutor em Ciência Animal, especialista em nutrição e sistemas regenerativos.

A Coluna Sustentabilidade Integral é uma coluna assinada pela ESGpec na Revista Leite Integral, que vem se consolidando como um espaço de diálogo entre ciência, inovação e prática no campo. Cada artigo é um convite à reflexão sobre o futuro da pecuária leiteira, e sobre como podemos equilibrar produtividade, bem-estar animal e responsabilidade ambiental.
Confira todas as colunas publicadas na revista:
1️⃣ O vento da mudança — um chamado para reconhecer que o tempo da sustentabilidade já chegou e que o agro precisa agir agora.
2️⃣ Tempos modernos — soluções práticas e tecnológicas para reduzir as emissões de metano na pecuária.
3️⃣ Além do horizonte — uma visão sobre como inovação e regeneração abrem novos caminhos para o leite do futuro.
4️⃣ Maneira simples — como cada escolha do produtor pode transformar a pecuária, tornando o ESG algo acessível e real no campo.
5️⃣ Nada é por acaso — comportamento animal e bem-estar: A ciência aplicada à produção leiteira sustentável.
6️⃣ COP30: O tempo não para — Qual o papel da pecuária em um planeta sob pressão?
7️⃣ COP30: Vamos precisar de todo mundo — O que a maior conferência do clima do mundo revelou para o leite brasileiro e por que a próxima década exige dados, transparência e implementação real no campo.
8️⃣ DE JANEIRO A JANEIRO: a sustentabilidade começa no básico — Este artigo mostra como decisões consistentes, do rebanho ao solo, reduzem emissões e aumentam a eficiência na produção de leite.
9️⃣ QUEM SABE FAZ A HORA - O Ano Internacional das Mulheres no Campo e o ESG além do carbono — Este artigo discute por que o futuro da pecuária leiteira depende não só de métricas ambientais, e por que o ESG precisa ir além do carbono para gerar resiliência real.
🔟 NOVO TEMPO - O bem-estar animal na agenda global da sustentabilidade do leite — Este artigo discute por que o bem-estar animal deixou de ser periférico e passou a integrar o núcleo da sustentabilidade do leite.
🌿 A coluna é fruto da parceria entre ESGpec e a Revista Leite Integral, e reforça nosso compromisso em tornar a sustentabilidade um tema prático, mensurável e inspirado



