QUEM SABE FAZ A HORA - O Ano Internacional das Mulheres no Campo e o ESG além do carbono
- Bruna Silper, Heloise Duarte e Luiz Gustavo Pereira

- 5 de fev.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 13 horas
Este artigo foi publicado na coluna Sustentabilidade Integral, da Edição 203 da Revista Leite Integral - clique para acessar a edição completa
O verso “quem sabe faz a hora”, da canção Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, inspira o título desta coluna e atravessou gerações como uma afirmação de responsabilidade e ação. Não fala de heroísmo individual, nem de improviso. Fala de quem conhece o contexto, lê o tempo certo e decide agir. No campo, essa lógica não é exceção. Ela estrutura o cotidiano produtivo e, em grande medida, é conduzida por mulheres que tomam decisões técnicas, produtivas e humanas muito antes que elas apareçam em relatórios, métricas ou inventários.
É justamente esse tipo de decisão, silenciosa, contínua e fundamental, que passa a ganhar reconhecimento no plano internacional. A decisão da Organização das Nações Unidas de dedicar 2026 ao International Year of the Woman Farmer, que adotamos aqui como Ano Internacional das Mulheres no Campo, não nasce de um gesto simbólico. Ela reflete algo central e ainda pouco considerado na agenda da sustentabilidade. Sistemas produtivos dependem, de forma direta, das pessoas que tomam decisões cotidianas no campo, e uma parte significativa dessas decisões é conduzida por mulheres.
O protagonismo feminino na pecuária não é pauta identitária nem narrativa desconectada do negócio. Ele emerge como resposta prática a sistemas produtivos pressionados por clima, renda e eficiência, e revela por que gênero passou a ser tratado, em nível global, como variável relevante de resiliência e adaptação nos sistemas agroalimentares.
Esse reconhecimento dialoga diretamente com o momento vivido pela pecuária leiteira. Nos últimos anos, o setor deu passos iniciais, e importantes, na dimensão ambiental do ESG, o “E” do inglês environmental. Metano, pegada de carbono, avaliação de ciclo de vida e inventários de emissões passaram a fazer parte do vocabulário técnico, impulsionados por exigências de mercado, compromissos corporativos e políticas climáticas. Os avanços existem. Mas os limites também.
Medir emissões com qualidade ainda é um desafio técnico relevante. Reduzir emissões de forma consistente exige tempo, investimento e mudança de manejo. Transformar dados ambientais em decisões práticas, dentro da porteira e ao longo da cadeia, segue sendo um dos maiores gargalos da sustentabilidade aplicada, que, na pecuária, ainda está em construção.
O PROTAGONISMO FEMININO NA PECUÁRIA EMERGE COMO RESPOSTA PRÁTICA A SISTEMAS PRODUTIVOS PRESSIONADOS POR CLIMA, RENDA E EFICIÊNCIA, E REVELA POR QUE GÊNERO PASSOU A SER TRATADO, EM NÍVEL GLOBAL, COMO VARIÁVEL RELEVANTE DE RESILIÊNCIA E ADAPTAÇÃO NOS SISTEMAS AGROALIMENTARES
É justamente nesse ponto que a agenda ESG precisa amadurecer. Apesar do foco crescente no componente ambiental, sistemas produtivos não funcionam apenas por métricas. Eles funcionam porque alguém decide, ajusta, observa, corrige e sustenta o processo todos os dias. Falamos cada vez mais sobre indicadores como a pegada de carbono. Mas ainda falamos pouco sobre quem toma decisões e age a partir destes números.
O desequilíbrio interno da agenda ESG
Na agropecuária, o “E” (ambiental) do ESG concentrou grande parte da atenção recente, o que é legítimo diante da urgência climática global. O problema surge quando o “S” (social) e o “G” (governança) entram apenas como complemento. O resultado tende a ser um paradoxo cada vez mais frequente: cadeias tecnicamente bem descritas, mas socialmente frágeis; relatórios consistentes, apoiados em realidades pouco compreendidas. Relatórios podem estar corretos. Sistemas, nem sempre. Essa fragilidade fica evidente quando observamos quem sustenta, de fato, os sistemas produtivos.
Mulheres nos sistemas agroalimentares: evidência global
Relatórios da FAO mostram que mulheres representam uma parcela expressiva da força de trabalho nos sistemas agroalimentares globais, especialmente em países em desenvolvimento. Estimativas consolidadas indicam que cerca de 40% a 45% da mão de obra agrícola é feminina. No entanto, quando se observa o acesso a ativos produtivos, a assimetria é evidente: menos de 15% das terras agrícolas estão sob titularidade feminina, e o acesso a crédito, assistência técnica e tecnologia permanece desigual. (Tabela 1)

Essa desigualdade não é apenas social. Ela tem efeito direto sobre produtividade, renda, resiliência climática e segurança alimentar. A própria FAO aponta que a redução da distância entre gêneros poderia gerar ganhos significativos de eficiência e capacidade adaptativa nos sistemas alimentares.
O caso brasileiro: presença real, visibilidade limitada
No Brasil, o Censo Agropecuário indica que mulheres respondem por aproximadamente 19% dos estabelecimentos agropecuários como titulares formais. Esse dado, por si só, já revela uma participação relevante. Mas ele não captura plenamente a realidade da atuação feminina no campo.
Análises críticas do Censo mostram que muitas mulheres participam ativamente da gestão, da tomada de decisão, do planejamento produtivo e da manutenção das atividades, mesmo quando não aparecem como responsáveis legais. Parte significativa desse trabalho permanece invisível aos instrumentos tradicionais de coleta de dados, que privilegiam titularidade formal e relações patrimoniais.
Essa diferença não é neutra. Ela influencia políticas públicas, acesso a crédito, assistência técnica, programas de capacitação e, cada vez mais, a forma como a sustentabilidade é medida, reportada e remunerada.
A pecuária leiteira e as decisões invisíveis
Na pecuária leiteira, essa dissociação entre visibilidade formal e protagonismo real se torna ainda mais evidente. Em inúmeras propriedades, mulheres não aparecem nos cadastros, mas estão no centro das decisões que determinam desempenho produtivo e sustentabilidade. Elas decidem sobre nutrição, sanidade, reprodução, descarte, bem-estar animal, organização da rotina, qualidade da ordenha e continuidade da atividade no longo prazo (Figura 1).

São decisões silenciosas, pouco documentadas e raramente mensuradas. No entanto, elas impactam diretamente indicadores que hoje estão no centro da agenda ESG: longevidade do rebanho, eficiência alimentar, redução de perdas, saúde animal, estabilidade produtiva e adaptação a eventos climáticos extremos. Não existe bem-estar animal sem atenção cotidiana. Não existe longevidade do rebanho sem observação constante. Não existe adaptação climática sem ajuste fino do sistema.
Sustentabilidade medida e sustentabilidade praticada
A distância entre o que se mede e o que se pratica ajuda a explicar por que tantas estratégias ESG encontram dificuldade de implementação real. Sistemas que medem bem, mas ignoram quem decide, correm o risco de serem tecnicamente corretos e estruturalmente frágeis (Figura 2).

Clima, gênero e resiliência produtiva
Estudos sobre clima e gênero mostram que eventos climáticos extremos tendem a impactar de forma desproporcional mulheres em contextos rurais. Isso não ocorre por falta de capacidade técnica, mas por restrições estruturais de acesso a recursos, crédito, informação e instrumentos de adaptação. Ao mesmo tempo, a literatura aponta que a inclusão efetiva das mulheres em estratégias de adaptação aumenta a resiliência dos sistemas produtivos (Tabela 2). Gênero, portanto, não é um tema periférico da agenda climática. É um fator estrutural de sucesso ou fracasso das estratégias de adaptação.

O ESG que começa pelas pessoas
Quando falamos de ESG como inteligência aplicada à produção, é preciso ampliar o olhar. ESG começa na governança real, aquela que define quem decide, quem tem acesso, quem permanece no campo e quem consegue sustentar e adaptar o sistema produtivo ao longo do tempo.
Algumas iniciativas brasileiras começam a explorar esse caminho de forma mais estruturada. É o caso da ESGpec, que desenvolve ferramentas digitais voltadas a traduzir práticas de manejo, bem-estar animal e governança em informação aplicável à agenda ESG na pecuária. A proposta não é substituir métricas ambientais, mas complementá-las, reconhecendo que a sustentabilidade também se constrói a partir de decisões cotidianas, muitas vezes tomadas por quem não aparece nos relatórios formais.
Não é coincidência que muitas práticas hoje associadas à sustentabilidade e à regeneração tenham surgido fora dos relatórios e fora dos holofotes. Elas nasceram da necessidade concreta de sustentar a produção diante da instabilidade econômica, da pressão climática e da escassez de recursos. Foram respostas práticas, construídas no tempo certo, por quem precisou fazer a hora acontecer.
Um ESG restrito a métricas ambientais corre o risco de produzir cadeias tecnicamente corretas, mas estruturalmente instáveis. Reconhecer quem sustenta o sistema não é gesto simbólico. É estratégia.
Se a agenda ESG pretende, de fato, orientar o futuro da pecuária, ela precisa ir além do inventário ambiental e do reporte formal. Sustentabilidade não se sustenta apenas com métricas bem calculadas, mas com decisões bem compreendidas. Tornar visível quem decide, como decide e em que contexto passa a ser parte da própria estratégia de transição sustentável. É nesse ponto que o ESG deixa de ser apenas um sistema de avaliação e passa a funcionar como uma ferramenta real de transformação, ancorada na governança, nas pessoas e na prática cotidiana do campo. Porque, no fim, quem sabe faz a hora.
Autores
Bruna Silper - Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal e produtora de leite em MG, CEO da ESGpec.
Heloise Duarte - Veterinária, especialista em Gestão Agroindustrial e produtora de corte em MG, COO da ESGpec.
Referências
FAO – The Status of Women in Agrifood Systems. https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/e7689bf7-00f0-465b-ad03-e0c56ffb14b1/content
The gender gap in agriculture and its implications on the context of climate change - https://www.fao.org/climate-smart-agriculture-sourcebook/enabling-frameworks/module-c6-gender/chapter-c7-2/en/
IBGE – Censo Agropecuário 2017

A Coluna Sustentabilidade Integral é uma coluna assinada pela ESGpec na Revista Leite Integral, que vem se consolidando como um espaço de diálogo entre ciência, inovação e prática no campo. Cada artigo é um convite à reflexão sobre o futuro da pecuária leiteira, e sobre como podemos equilibrar produtividade, bem-estar animal e responsabilidade ambiental.
Confira todas as colunas publicadas na revista:
1️⃣ O vento da mudança — um chamado para reconhecer que o tempo da sustentabilidade já chegou e que o agro precisa agir agora.
2️⃣ Tempos modernos — soluções práticas e tecnológicas para reduzir as emissões de metano na pecuária.
3️⃣ Além do horizonte — uma visão sobre como inovação e regeneração abrem novos caminhos para o leite do futuro.
4️⃣ Maneira simples — como cada escolha do produtor pode transformar a pecuária, tornando o ESG algo acessível e real no campo.
5️⃣ Nada é por acaso — comportamento animal e bem-estar: A ciência aplicada à produção leiteira sustentável.
6️⃣ COP30: O tempo não para — Qual o papel da pecuária em um planeta sob pressão?
7️⃣ COP30: Vamos precisar de todo mundo — O que a maior conferência do clima do mundo revelou para o leite brasileiro e por que a próxima década exige dados, transparência e implementação real no campo.
8️⃣ DE JANEIRO A JANEIRO: a sustentabilidade começa no básico — Este artigo mostra como decisões consistentes, do rebanho ao solo, reduzem emissões e aumentam a eficiência na produção de leite.
9️⃣ QUEM SABE FAZ A HORA - O Ano Internacional das Mulheres no Campo e o ESG além do carbono — Este artigo discute por que o futuro da pecuária leiteira depende não só de métricas ambientais, e por que o ESG precisa ir além do carbono para gerar resiliência real.
🔟 NOVO TEMPO - O bem-estar animal na agenda global da sustentabilidade do leite — Este artigo discute por que o bem-estar animal deixou de ser periférico e passou a integrar o núcleo da sustentabilidade do leite.
🌿 A coluna é fruto da parceria entre ESGpec e a Revista Leite Integral, e reforça nosso compromisso em tornar a sustentabilidade um tema prático, mensurável e inspirado



