Mercado de carbono em xeque: por que a pecuária precisa começar pelos dados, não pelos créditos
- Equipe ESGpec

- 6 de mai.
- 5 min de leitura
A provocação veio de forma direta no artigo publicado pela AgFunder News, “What’s next for carbon markets? Maturity signals or ‘medieval indulgences’, de Jennifer Marston, em abril de 2026: os mercados de carbono estão finalmente amadurecendo ou ainda funcionam como uma espécie de indulgência medieval moderna, em que se paga para aliviar a consciência sem enfrentar de fato o problema?
A pergunta é desconfortável, mas extremamente necessária.
Nos últimos anos, o mercado de carbono ganhou protagonismo como ferramenta para financiar a transição climática, especialmente em setores ou extensos na sua representatividade frente às fontes antropogênicas de emissões, como a agropecuária. Ao mesmo tempo, cresceram também as críticas sobre a qualidade, a credibilidade e a efetividade de alguns dos créditos comercializados no mercado voluntário.
Mais do que discutir se o carbono tem valor, a questão passou a ser outra: como garantir que esse valor seja real?
Especialmente na pecuária leiteira, onde a pressão por redução de emissões cresce rapidamente, entender essa diferença deixou de ser opcional.
O problema está na confiança
O mercado de carbono nasceu com uma proposta original simples: direcionar recursos financeiros para atividades que efetivamente reduzam ou removam emissões de gases de efeito estufa. Na teoria, quem emite mais pode financiar reduções em outro lugar. Na prática, porém, a discussão se tornou muito mais complexa.
Críticos apontam que muitos créditos apresentam fragilidades estruturais importantes: reduções superestimadas, ausência de adicionalidade, riscos de reversão futura, dupla contagem, vazamento de emissões e baixa capacidade de verificação independente.
O próprio artigo da AgFunder destaca que esses problemas continuam polarizando o setor há mais de 25 anos, com críticos descrevendo parte do mercado mais como “cortina de fumaça” do que como solução real.
No fundo, todos esses problemas se resumem em uma única palavra: confiança. Sem confiança, o crédito perde valor. Sem rastreabilidade, a promessa vira marketing. Sem dados consistentes, sustentabilidade vira discurso.

Críticos descrevem parte do mercado mais como “cortina de fumaça” do que como solução climática real, em um debate que polariza o setor há mais de 25 anos. Sem rastreabilidade, a promessa vira marketing. Sem dados consistentes, sustentabilidade vira discurso.
O mercado começou a endurecer
Esse endurecimento já aparece entre os maiores compradores globais.
A Microsoft, hoje a maior compradora mundial de créditos de carbono, respondeu por cerca de 90% a 96% das compras globais de créditos de remoção de carbono em 2025, segundo diferentes análises de mercado. Quando surgiram notícias de que a empresa estaria pausando parte de novas aquisições, o setor inteiro reagiu.
A diretora de sustentabilidade da Microsoft, Melanie Nakagawa, afirmou que o programa não foi encerrado, mas que a empresa pode ajustar ritmo e volume de compras enquanto refina sua estratégia de sustentabilidade. Segundo ela, isso representa disciplina, não redução de ambição climática.
A mensagem foi clara: não basta comprar créditos, é preciso comprovar qualidade. Isso não significa o fim do mercado de carbono; é, provavelmente, uma indicação de sua maturidade. Esse amadurecimento passa por critérios mais consistentes, auditoria mais séria e muito menos tolerância a soluções fáceis.
Na pecuária, o risco é querer começar pelo fim
No setor leiteiro, é comum que a conversa sobre sustentabilidade salte diretamente para uma pergunta: “Minha fazenda pode vender crédito de carbono?”
A pergunta faz sentido, mas quase sempre ela chega cedo demais. Antes de falar em crédito, é preciso falar em diagnóstico. Antes da monetização, vem a mensuração. Antes da compensação, vem a redução. A lógica correta não começa no que se pode vender. Começa dentro da porteira, conhecendo as fontes de emissão (fermentação entérica, manejo de dejetos, fertilização, consumo de energia e combustíveis) e as formas de reduzir a intensidade de emissões (produtividade por animal, eficiência alimentar, qualidade da dieta, manejo de pastagens e bem-estar animal). Antes de conhecer estes parâmetros para a fazenda, individualmente, qualquer promessa climática vira especulação.
O próprio mercado já está migrando de offsetting para insetting
Esse movimento já está acontecendo entre grandes empresas que dependem de cadeias agropecuárias e começam a rever suas estratégias climáticas.
Antes de avançar, vale uma distinção importante:
Offsetting é quando uma empresa compensa suas emissões financiando reduções ou remoções de carbono fora da sua própria operação, como compra de créditos de reflorestamento, conservação florestal ou captura de carbono em outras regiões.
Já o insetting acontece dentro da própria cadeia de valor. Em vez de compensar externamente, a empresa investe na redução das emissões de seus próprios fornecedores, produtores e parceiros produtivos.
Na prática, enquanto o offsetting compra compensação, o insetting constrói transformação.
Um exemplo relevante foi o da Horizon Organic, uma grande marca de laticínios orgânicos dos Estados Unidos, fortemente dependente da cadeia leiteira e inserida no setor de alimentos por meio da produção e comercialização de derivados lácteos. A empresa abandonou sua antiga meta de se tornar “carbono positiva”, fortemente apoiada em offsetting, e passou a adotar uma estratégia baseada em insetting, por meio da descarbonização da própria cadeia produtiva.
A liderança da empresa foi direta. Em entrevista à AgFunder News, Jennifer Smith, diretora de sustentabilidade da Horizon Organic, afirmou: “Eu não queria apenas escrever cheques para offsets que não fossem tão significativos quanto usar esses mesmos recursos para trabalhar com nossos produtores.”
A frase resume bem a mudança de mentalidade que começa a ganhar força no mercado. Em vez de compensar emissões fora da operação, o foco passa a ser a transformação estrutural da própria cadeia de fornecimento, investindo diretamente em produtores, rastreabilidade e redução real de emissões. Menos indulgência climática e mais responsabilidade, transparência e resultado comprovável.

Na prática o offsetting compra compensação. O insetting constrói transformação
O verdadeiro ativo climático está nos dados
Talvez esse seja o principal ponto ainda mal compreendido na agropecuária: o maior valor não está no crédito. Está na capacidade de provar.
Empresas de alimentos, laticínios e grandes compradores de matérias-primas estão cada vez mais pressionados pelas exigências de Escopo 3, justamente porque a maior parte das emissões não está no processo industrial, e sim na cadeia de fornecimento.
Em muitos setores, o Escopo 3 pode representar entre 65% e 95% da pegada de carbono do produto final, tornando-se a parte mais difícil de monitorar e reduzir. É aqui que a pecuária muda de posição. Ela deixa de ser apenas parte do problema e passa a ser parte estratégica da solução.
Quem consegue medir, melhora mais rápido. Quem consegue rastrear, negocia melhor. Quem consegue comprovar, acessa mercados e créditos primeiro.
O futuro não será de quem prometer mais. Será de quem comprovar melhor
No futuro, o provável é que o mercado de carbono deixe, cada vez mais, de aceitar narrativas genéricas, e passe a exigir consistência, histórico, comparabilidade e governança.
Na prática, isso significa que o produtor que conhece a pegada de carbono do seu produto, entende seus principais pontos de emissão e consegue mostrar evolução ao longo do tempo está muito mais preparado do que aquele que apenas buscou uma oportunidade de gerar créditos para vender.
O crédito provavelmente vem ao final. Mas a base, o início, será sempre a mesma: dados confiáveis.Talvez essa seja a principal reflexão deste momento. A sustentabilidade da pecuária não será construída com indulgências modernas. Ela será construída com gestão, transparência e decisões técnicas bem fundamentadas.

O crédito pode vir depois. Mas a base sempre será a mesma: dados confiáveis, padronizados e transparentes.
O que lemos para escrever este artigo
AgFunder News. What’s next for carbon markets? Maturity signals or ‘medieval indulgences’.
AgFunder News. Exclusive: Horizon Organic quietly ditches carbon-positive goal, pursues new insetting strategy
AgFunder News. The climate change battle will be ‘won or lost’ on Scope 3 emissions. Here are the companies taking action.
Bloomberg Green. Microsoft Staff Tell Some Carbon Capture Companies It’s Pausing Deals.
ESGpec. Pegada de Carbono na Produção de Leite – Guia prático para produtores e técnicos.




