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Tecnologia e ciência focadas na sustentabilidade social de fazendas leiteiras

Uma nova forma de medir o bem-estar animal a partir de dados de 326 fazendas brasileiras 


Todos os dias, milhares de dados são coletados em propriedades leiteiras ao redor do mundo. Informações sobre produção, qualidade do leite, manejo, sanidade e bem-estar alimentam softwares, planilhas e sistemas de gestão.


Mas apenas uma pequena parcela desses dados reúne três características fundamentais:

  • escala;

  • padronização;

  • qualidade metodológica suficiente para responder perguntas científicas. 


Quando isso acontece, eles deixam de ser apenas registros operacionais e passam a gerar evidências capazes de orientar decisões, influenciar políticas públicas e contribuir para o avanço da ciência. Foi exatamente isso que aconteceu com um estudo conduzido pelo pesquisador Luiz Gustavo Ribeiro Pereira, da University of Copenhagen, Dinamarca, em parceria com pesquisadores internacionais, utilizando dados de 326 fazendas leiteiras brasileiras avaliadas por meio da metodologia BEA Score da ESGpec.


Os resultados foram apresentados durante a ADSA (American Dairy Science Association) Annual Meeting 2026, um dos eventos científicos mais relevantes da ciência do leite no mundo, que reuniu pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e empresas de diversos países para discutir os avanços mais recentes da área.


O trabalho mostra a qualidade metodológica dos dados produzidos no Brasil e a capacidade de transformar informações coletadas nas fazendas em conhecimento científico de alcance global e, o mais importante, indica o caminho para o produtor melhorar o bem-estar animal e a sustentabilidade social da fazenda leiteira.


Em um cenário em que grande parte das pesquisas internacionais utiliza dados produzidos em países de clima temperado, ver informações coletadas em fazendas brasileiras contribuindo para o avanço da ciência representa também um reconhecimento da qualidade da pesquisa e da produção leiteira desenvolvidas no Brasil. 


Quando o bem-estar animal deixa de ser apenas um conceito


Nos últimos anos, o bem-estar animal deixou de ser tratado apenas como uma questão ética. Hoje ele ocupa posição estratégica dentro das agendas de sustentabilidade, segurança alimentar, competitividade e acesso aos mercados internacionais.


Dentro dessa visão mais ampla, o bem-estar animal está diretamente conectado à sustentabilidade social dos sistemas produtivos, pois reflete a forma como a atividade se relaciona com os animais, com as pessoas envolvidas na produção e com as expectativas da sociedade. 


Consumidores exigem cada vez mais transparência. Grandes indústrias incorporam indicadores de bem-estar em seus programas de fornecedores. Organizações internacionais passaram a recomendar métricas padronizadas. Por exemplo, o Dairy Sustainability Framework (DSF), referência em direcionar a forma de avaliar a sustentabilidade para o setor lácteo, recomenda a Contagem de Células Somáticas como indicador de bem-estar animal. 


Ao mesmo tempo, cresce o desafio de desenvolver ferramentas capazes de avaliar o bem-estar de forma objetiva, escalável e aplicável à realidade das fazendas comerciais, que possam complementar o indicador básico CCS, atualmente em uso pelas empresas vinculadas ao DSF.


Da avaliação individual à inteligência de dados


Avaliar o bem-estar animal é uma atividade complexa. Diferentemente dos indicadores produtivos, o bem-estar não pode ser representado por uma única variável. Ele depende da interação entre diversos fatores relacionados ao ambiente, à nutrição, à saúde, ao comportamento e ao estado mental dos animais. Por esse motivo, o estudo utilizou uma abordagem multidimensional baseada nos cinco domínios internacionalmente reconhecidos para avaliação do bem-estar animal.


Da coleta de dados à geração de evidências


Transformar dados em conhecimento científico exige mais do que volume de informações. Exige método, consistência e comparabilidade. Para que os dados coletados em diferentes fazendas gerem evidências confiáveis, eles precisam ser obtidos por meio de protocolos padronizados e organizados de modo a permitir comparações consistentes entre propriedades, equipes e regiões. 


No presente estudo, esse processo foi estruturado em quatro etapas: expansão da base de propriedades avaliadas, padronização dos protocolos de coleta, digitalização das avaliações por meio do aplicativo ESGpec e geração de indicadores comparáveis, que posteriormente puderam ser utilizados nas análises conduzidas pelos pesquisadores. Esse fluxo metodológico é sintetizado na Figura 1, que ilustra como os dados coletados em propriedades leiteiras são transformados em indicadores padronizados e, posteriormente, em resultados aplicados ao campo. 


Figura 1. Framework "Da fazenda à evidência científica": transformação de dados coletados em propriedades leiteiras em evidências científicas capazes de apoiar pesquisa, gestão e inovação. 


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A combinação entre escala, padronização e digitalização torna possível algo que historicamente sempre foi um desafio nas avaliações de bem-estar animal: produzir indicadores comparáveis em larga escala, mantendo consistência metodológica suficiente para aplicações científicas. 


O estudo foi coordenado por Luiz Gustavo Ribeiro Pereira, professor da University of Copenhagen vinculado ao grupo de pesquisa em Dados e Modelagem do Departamento de Veterinária e Ciência Animal.


Sua trajetória conecta duas frentes complementares: o desenvolvimento de pesquisas na Europa, onde o tema encontra-se em estágio de maturação mais avançado, e a aplicação prática de metodologias consagradas à realidade da pecuária leiteira brasileira.


Essa integração entre a universidade e o setor produtivo permite transformar os dados coletados no campo em conhecimento científico com potencial de impacto nos diferentes elos da cadeia produtiva, e o resultado final é fruto do esforço de uma equipe multidisciplinar que envolveu produtores, técnicos de campo, laticínio, equipe ESGpec, e os professores pesquisadores da Universidade de Copenhague.


A base utilizada neste estudo foi gerada durante a execução de um projeto conduzido pela ESGpec para a Alvoar Lácteos, com foco na avaliação e no avanço da sustentabilidade em propriedades leiteiras. As informações foram coletadas e organizadas por meio das ferramentas desenvolvidas pela ESGpec. Para esta análise científica, foi realizado um recorte específico das fazendas que possuíam avaliações de bem-estar animal e histórico consistente de análises de qualidade do leite, permitindo investigar a relação entre a Contagem de Células Somáticas (CCS) e os indicadores de bem-estar


As avaliações foram realizadas por 26 avaliadores treinados pela ESGpec, utilizando o aplicativo digital BEAscore, ou seja, o mesmo protocolo de coleta de dados em 326 propriedades leiteiras brasileiras. Cada fazenda recebeu escores específicos para os domínios:

  • Ambiente

  • Nutrição

  • Saúde

  • Comportamento

  • Estado mental


Esses resultados foram integrados em um índice composto, denominado BEA Score, variando de 0 a 10 pontos, permitindo comparar o desempenho global das propriedades de maneira padronizada.


O que o estudo investigou


O objetivo central foi verificar como está o desempenho das fazendas brasileiras quanto ao bem-estar animal e estudar a relação entre CCS e o escore de bem-estar animal. Para isso, as propriedades foram agrupadas em quatro categorias de CCS:

  • inferior a 200 mil células/mL;

  • entre 200 e 300 mil;

  • entre 300 e 400 mil;

  • superior a 400 mil células/mL.


Foram empregadas análises de correlação de Spearman para avaliar a relação entre CCS e os escores de bem-estar, teste de Kruskal-Wallis e comparações múltiplas com correção de Holm, com nível de significância de 95% para avaliar as diferenças de escores entre os grupos de CCS. 


Por que este estudo é diferente?


Estudos sobre bem-estar animal frequentemente enfrentam um desafio importante: transformar avaliações realizadas em diferentes propriedades em informações realmente comparáveis. Diferenças nos protocolos de coleta, na formação dos avaliadores, nas ferramentas utilizadas e no tamanho das amostras podem dificultar a interpretação dos resultados e limitar sua aplicação em larga escala.


Neste estudo, buscou-se justamente superar essas limitações por meio de uma abordagem estruturada e padronizada.


O diferencial desta pesquisa está na combinação de:

326 fazendas leiteiras brasileiras, representando uma ampla diversidade de sistemas produtivos;

26 avaliadores treinados, utilizando o mesmo protocolo de avaliação;

Coleta digital padronizada, garantindo rastreabilidade e integridade das informações;

Metodologia única, baseada no BEA Score da ESGpec;

Análises estatísticas, permitindo comparar objetivamente diferentes níveis de CCS;

Parceria entre o setor privado e academia;

Apresentação na ADSA Annual Meeting 2026, um dos principais eventos científicos mundiais em ciência do leite.


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ADSA Annual Meeting


Fundada em 1906, a American Dairy Science Association promove um dos mais tradicionais encontros científicos dedicados à ciência do leite no mundo.


O evento reúne anualmente pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e empresas para apresentar estudos nas áreas de produção leiteira, nutrição, saúde animal, reprodução, genética, qualidade do leite, sustentabilidade e bem-estar animal.

Ter um trabalho selecionado para apresentação na ADSA representa uma importante oportunidade de divulgação científica e discussão dos resultados com a comunidade internacional.


Ao longo de mais de um século, a ADSA consolidou-se como um dos principais fóruns internacionais para divulgação e discussão dos avanços científicos relacionados à cadeia leiteira. 


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Apresentação de Luiz no ADSA


Os resultados mostram um padrão consistente e grande variabilidade no escore de bem-estar animal


Os BEA scores variaram de 40 a 90, o valor médio e mediana foram de 72 e 73 para as 326 fazendas, 78 fazendas (24%) apresentaram score superior a 80, 125 fazendas (38%) entre 70 e 80 e 123 (38%) abaixo de 70. Ou seja, ¼ das fazendas já apresentam escore superior ao limite de 80, que indica alta probabilidade de obter certificação em bem-estar, e 38% estão próximas de atingi-lo. Enquanto 38% precisam de trabalho estruturante para melhorar o bem-estar animal. Saúde e estado mental foram os domínios com os menores escores médios (66 e 70) e que precisam de mais atenção em programas de melhoria em bem-estar animal. 


Os resultados revelaram uma associação clara entre o aumento da CCS e a redução dos indicadores de bem-estar. Em outras palavras: quanto maior a Contagem de Células Somáticas, menor foi o desempenho das propriedades nos indicadores de bem-estar animal. A associação foi observada em praticamente todos os domínios avaliados.


O domínio Saúde apresentou a correlação mais forte. Também foram observadas associações relevantes nos domínios de Nutrição e Ambiente.


Além das correlações, os grupos de CCS apresentaram diferenças entre si, comprovando a relação entre CCS e bem-estar nas fazendas leiteiras. 


Um resultado que chama atenção


Talvez o dado mais interessante esteja na evolução do escore global. À medida que a CCS aumentava, o BEA Score diminuía progressivamente:


Figura 2. Contração progressiva do perfil multidimensional de bem-estar conforme aumenta a Contagem de Células Somáticas (CCS) 


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Perfis médios dos escores de bem-estar animal para os quatro grupos de CCS. Observa-se uma redução progressiva dos escores em todos os domínios avaliados à medida que aumenta a CCS, resultando na contração do perfil multidimensional de bem-estar. O BEA Score representa o escore global calculado a partir da integração dos cinco domínios avaliados. 


Como interpretar o gráfico?


Os gráficos em radar permitem visualizar simultaneamente o desempenho das propriedades em diferentes dimensões do bem-estar animal.


Cada eixo representa um dos componentes avaliados:

  • EMEN – Estado mental

  • COMP – Comportamento

  • AMBI – Ambiente

  • SAUD – Saúde

  • NUTR – Nutrição


Na legenda da base de cada gráfico está o BEA Score, indicador composto que integra os resultados dos cinco domínios e representa o desempenho global da propriedade em bem-estar animal.


Quanto maior a área preenchida pelo gráfico, melhor o desempenho nos diferentes domínios avaliados. A redução gradual dessa área entre os grupos evidencia a contração do perfil de bem-estar conforme aumenta a Contagem de Células Somáticas (CCS).


O comportamento dos dados demonstra um gradiente bastante consistente. Não se trata apenas de propriedades com ou sem mastite. Essa tendência pode ser visualizada claramente na Figura 2. À medida que a CCS aumenta, observa-se uma contração progressiva do perfil multidimensional de bem-estar, indicando que a redução do desempenho não ocorre apenas em um único indicador, mas de forma consistente entre os diferentes domínios avaliados. 


O que isso significa na prática?


É importante destacar que o estudo não conclui que a CCS substitui uma avaliação de bem-estar animal. Seria um erro científico fazer essa interpretação. O que os resultados indicam é algo diferente e igualmente relevante: A CCS pode funcionar como um indicador sentinela.


Por ser amplamente utilizada, relativamente barata e rotineiramente monitorada pelas fazendas e indústrias, ela pode ajudar a identificar propriedades que merecem avaliações mais aprofundadas de bem-estar. Isso amplia significativamente seu potencial de utilização dentro dos programas de monitoramento da sustentabilidade em condições brasileiras.


Os resultados foram produzidos utilizando dados coletados em 326 fazendas comerciais brasileiras. Uma parcela expressiva das fazendas já apresenta padrão compatível com certificação em bem-estar animal ou está próxima de alcançá-lo, restando um grupo menor que demanda intervenções mais estruturantes para atingir esse nível. Resultados que refletem a diversidade dos sistemas de produção nacionais. Esse tipo de evidência aproxima a pesquisa científica da realidade enfrentada diariamente por produtores, técnicos e indústrias.


Mais do que produzir conhecimento acadêmico, estudos dessa natureza permitem transformar informações operacionais em evidências capazes de apoiar decisões de gestão.


Tecnologia e ciência caminhando juntas


Um dos aspectos mais interessantes deste trabalho é demonstrar que ferramentas digitais desenvolvidas para apoiar a gestão de propriedades também podem contribuir para a produção científica.


A metodologia BEA Score da ESGpec foi concebida para transformar avaliações individuais de bem-estar em indicadores comparáveis, permitindo que informações coletadas em diferentes propriedades possam ser analisadas de forma integrada e cientificamente consistente. 


Esse movimento aproxima universidades, empresas, produtores e indústria em torno de um objetivo comum: produzir conhecimento aplicável, baseado em dados reais.


No caso deste estudo, a apresentação na ADSA Annual Meeting 2026 representa um importante meio de comunicação à comunidade científica. 


A ADSA reúne alguns dos principais pesquisadores da ciência do leite no mundo e funciona como um espaço de discussão das pesquisas mais recentes em nutrição, saúde, reprodução, genética, bem-estar, qualidade do leite e sustentabilidade. Ter um estudo desenvolvido com dados brasileiros apresentado nesse ambiente amplia sua visibilidade e fortalece sua credibilidade perante a comunidade científica internacional.


Para a ESGpec , essa divulgação cientifica reforça um princípio presente desde a criação da empresa: desenvolver metodologias baseadas em evidências científicas, capazes de transformar dados coletados nas fazendas em conhecimento confiável para produtores, técnicos, indústrias e pesquisadores.


O futuro passa pela integração entre ciência e gestão


A transformação da pecuária leiteira não depende apenas da incorporação de novas tecnologias ou da digitalização das fazendas. Ela depende, sobretudo, da capacidade de transformar dados em conhecimento confiável.


Todos os dias, milhares de informações são geradas nas propriedades leiteiras. Entretanto, somente quando esses dados são coletados de forma padronizada, analisados com rigor científico e interpretados por metodologias consistentes, eles deixam de ser apenas registros operacionais e passam a gerar evidências capazes de orientar decisões, apoiar políticas públicas e impulsionar a evolução de toda a cadeia produtiva.


O estudo apresentado na ADSA 2026 demonstra exatamente esse potencial. Mais do que investigar a relação entre Contagem de Células Somáticas e bem-estar animal, ele evidencia que dados produzidos em fazendas brasileiras podem alcançar reconhecimento internacional quando são estruturados dentro de um modelo científico robusto.


Em um cenário em que sustentabilidade, qualidade do leite e bem-estar animal caminham cada vez mais juntos, integrar campo, tecnologia e ciência deixa de ser tendência para se tornar um requisito para o futuro da produção leiteira.


É justamente essa convergência entre produção, inovação e pesquisa que a ESGpec busca construir diariamente, transformando dados do campo em conhecimento capaz de gerar impacto técnico, científico e internacional. É a pecuária deixando de ser objeto da pesquisa científica e passando a ser protagonista na construção do conhecimento. 



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